segunda-feira, 30 de junho de 2008

O bastão de Marinho

Aí está mais uma vez o dr. Marinho e Pinto. Ainda as mais diversas associações femininas (ou feministas - juristas inclusivé) afiavam a língua (e as unhas, aposto) contra as declarações politicamente incorrectas do bastonário sobre a natureza pública do crime de violência doméstica, instando até as suas congéneres a não recorrerem aos serviços do causídico, já Marinho e Pinto se divertia a dar mais umas bastonadas nos juízes, no oportuníssimo momento mediático em que estes magistrados apareciam nos écrans a queixar-se de apanharem dos arguidos.
Mas como quem vai à guerra, dá e leva, não tardou para que o dr. Marinho apanhasse também; só que apanhou de si mesmo, como se, à força de tanto arrear, às tantas fosse o seu próprio bastão a atingi-lo em cheio na ética. É que, conforme confirmado pelo próprio, o dr. Marinho, tal como defendera durante a campanha para bastonário (verdade seja escrita), propõs ao Conselho da Ordem, que aprovou, que o bastonário passasse a ser remunerado e a ter direito a subsídio de reintegração.
Só por si, a notícia nada trás de novidade: o actual bastonário sempre defendeu a profissionalização do cargo que exerce. Curioso é que, sob a manchete que o noticía os seus autores não tenham logrado esconder os sorrisos escarninhos de alcoviteiras com que aparecem no caso. E lamentável é que, Marinho e Pinto, que não entrou na Ordem vindo duma SGPS da advocacia, querendo certamente eximir-se a um maior escrutínio da sua proposta - certamente utilíssima às oposições internas -, não tenha, ainda assim, consultado os conselhos distritais, dando assim o peito (a ética) a mais esse combate pela dignificação da advocacia, para acabar por emprestar ao(s) cavaleiro(s) da advocacia societária a cernelha - e passar por juiz em causa própria.

Da fruta (nem cheiro)

Afinal, não vai haver fruta para ninguém. Lamentavelmente, o juiz de instrução criminal do TIC do Porto não parece privilegiar a fruta na sua dieta alimentar, pelo que não vai submeter Pinto da Costa a julgamento no "Processo da Fruta" em que, de acordo com o MP (ou com a interpretação que Maria José Morgado fez das escutas telefónicas efectuadas ao presidente do FCP, no processo "Apito Dourado"), o Papa do Futebol nacional é escutado a tratar da dieta do árbitro Jacinto Paixão com o empresário António Araújo, na véspera duma partida FCP-Estrela da Amadora que o árbitro haveria de conduzir.
Segundo o JIC, o confronto do teor da conversa havida entre Pinto da Costa e Araújo com o depoimento de Carolina Salgado não lhe permitiu concluir que os escutados haviam acordado a contratação de prostitutas para o árbitro Paixão, ou seja: a conversa sobre a fruta foi, processualmente falando, infrutífera.
Inconformado, o MP já revelou que vai recorrer da fruta.
De Pinto da Costa, por sua vez, é de presumir que, tão depressa, não irá comer ou sequer recomendar fruta a quem quer que seja, pois, depois da overdose de vitamina C que foi Carolina Salgado, fruta só se for fruta-pão.

sábado, 28 de junho de 2008

Jú(não)dice

Aparentemente, José Miguel Júdice fartou-se de ser o responsável fáctico pelo plano de revitalização da zona ribeirinha de Lisboa. Aparentemente porque este nada disse sobre as razões que o levaram a afastar-se da liderança do projecto - tirando um excerto lacónico da carta de demissão, entregue a Sócrates, por si declamado em directo ao seu curioso companheiro do programa Dia D, António Barreto.
Segundo o visado, as suas razões serão vertidas em livro, a apresentar em breve ao grande público.
Está na moda: agora quem tem ou julga ter algo a revelar ao país, já não convoca conferências de imprensa nem escreve artigos nos jornais - escreve livros. O meio e a forma sempre emprestam alguma dignidade ao conteúdo (ou à ausência dele) e garantem uns trocados extras aos (pseudo) autores. Veja-se Carolina Salgado ou, conforme já prometido, Valentim Loureiro.
Vamos então aguardar - e juntar uns trocos - para comprar o livro das revelações de Júdice - para compor a estante lá da sala.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A Ferreira Leite de ontem, de hoje e a de amanhã

Manuela Ferreita Leite já está em campanha para as legislativas. Depois de falar - e nada dizer (nem nas linhas, nem nas entrelinhas) - ao partido, a nova líder da oposição resolveu encerrar o congresso dos social-democratas com meia dúzia de ideias gerais para o país. Um sistema fiscal transparente, simples e previsível e um Sistema Nacional de Saúde que garanta uma assistência condigna a todos independentemente da sua capacidade económica são as propostas que Manuela Ferreira Leite se propõe apresentar ao país. Para além da promoção da cidadania, claro. Soa sempre bem.
Para ideias-força de campanha, nada a declarar. Para quem era acusada de não ter um programa político, de não concretizar, de não definir um alvo, Manuela Ferreira Leite lá veio fazer pontaria a dois - dois alvos estratégicos tão concretos e pesados como elefantes: impossíveis de falhar. O que ela não diz é com que armas e munições lhes vai acertar - e muito menos quem vai dar o corpinho aos paquidermes.
É pena é que a nossa Tatcher só agora tenha dado pela falta de lógica e transparência no nosso sistema (problema!) fiscal e pela necessidade de assegurar a manutenção de um SNS condigno. Pois não passou já Ferreira Leite pelas Finanças? E não foi ela quem vendeu parte da dívida da Seg. Social ao Citygroup ?
Há muita falta de memória na política...

Vale "Tudo" e Azevedo

O processo Vale e Azevedo é um bom exemplo de como a burla, a falsificação, a indignidade profissional e a degenerescência ética, quando praticadas com o luxo e a sofisticação só concedidas ao sucesso, ganham a aura de fita hollyhoodesca. Segundo o Correio da Manhã, o ex-presidente do Benfica e advogado de sucesso, condenado em 2006 a sete anos e meio de prisão pela prática de vários crimes de burla e falsificação de documentos, está a viver, não como um Corleone ou Escobar, mas como um verdadeiro lorde inglês, em Londes, no bairro mais caro da capital britânica. Apesar de contra si impender um mandado de detenção europeu, o advogado, actualmente inibido pela Ordem, pelo período de 10 anos, de exercer advocacia, vive luxuosamente a cem metros da nossa embaixada londrina e é vizinho de Abramovitch, fazendo-se inclusivamente transportar num Bentley conduzido por motorista.
Nas palavras do seu mandatário londrino, Vale e Azevedo não está (por enquanto, acrescento eu) fugido à justiça portuguesa, estando simplesmente a aguardar pelo resultado do cômputo de penas a que foi condenado. Ou seja: enquanto por cá lhe fazem a contabilidade dos anos de prisão a cumprir, Vale e Azevedo, por lá, vai gozando placidamente a vida, entretido a especular no sector dos cereais e do etanol.
À cautela, o PGR já veio dizer que o mundo é grande, pelo que poderá ser difícil ver cumprida a detenção do ex-advogado.
Aos lesados resta-lhes, por sua vez, crer que Deus é grande, como o mundo do PGR e a impunidade do ex-presidente do Benfica.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pombal ao serviço da CML

Manuel Salgado, o vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, inaugura hoje a exposição "Lisboa 1758 - O Plano da Baixa Hoje". Com o evento, segundo se informa no site da CML, visa-se assinalar "a passagem dos 250 anos sobre o plano urbanístico elaborado na sequência do terramoto de 1755, ao mesmo tempo que se pretende dinamizar o debate público em torno do projecto actual de revitalização da Baixa".
Sabendo-se que o projecto actual de revitalização daquela zona nobre da cidade apresenta como vectores essenciais a instalação de dois museus - o do Banco de Portugal na Igreja de S. Julião e o do Design e Moda nas antigas instalações do BNU -, a construção de um elevador de acesso ao Castelo a partir da Rua dos Fanqueiros e a implatação de um jardim nos terraços do quartel do Carmo, não alcanço, sinceramente, onde entra aqui o plano (esse sim, um Plano) mandado elaborar por Pombal. A não ser que estejamos perante mais uma operação de marketing político e Manuel Salgado tenha sentido necessidade de colmatar o aparente adormecimento do processo de revitalização apelando ao fascínio que a figura de Pombal suscita no imaginário português.
É que, a continuarmos assim e a atender à evidente irrelevância do designado "plano de revitalização da Baixa", o vereador Salgado, para convencer os lisboetas da bondade pública do seu plano, vai ter de mandar exumar, não o plano pombalino, mas o próprio Pombal, e convencê-lo a participar num spot promocional de divulgação do futuro Museu da Moda!

DECO, uma aliada improvável

A DECO subscreve a proposta da ERSE de imputar aos consumidores da EDP os calotes pregados à empresa. Surpreendido(a)? Já somos dois.
Segundo aquela associação de defesa do consumidor, a proposta tem a virtualidade de clarificar o processo de imputação de riscos inerentes a actividades comerciais como a de fornecimento de energia eléctrica ou a concessão de crédito bancário. Ou seja: para a DECO, já que o esbulho e o abuso de confiança são práticas inevitáveis do mercado, pelo menos clarifiquemos as regras do esbulho! Roubem-me mas digam-me quanto, quando e como, eis as exigências de capitulação da nossa mais conhecida associção de defesa do consumidor.