quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Humanismos à la carte

Nunca percebi a pertinência destes surtos de indignação humanista. Entrados na 2ª ou 3ª série da novela "Os vôos ilegais da CIA", é agora a Human Right Watch, qual coro operático, que vem denunciar a miopia benévola das democracias ocidentais, relativamente às ignomínias das outras, as ficcionais.
Mas não é a hipocrisia uma disciplina da diplomacia ocidental? Não é a ambiguidade ética um requisito geral de admissão no clube UE? E não é a tibieza sinónimo de sentido de Estado nas nossas democracias?
Compreende-se que umas quantas ONG´s internacionais, de tempos a tempos, necessitem de fazer prova de vida para os seus patrocinadores; releva-se que meia dúzia de euro-burocratas estejam a fazer render a pólvora (seca) no combate combinado da honorabilidade internacional; mas já não há pachorra para os pregadores profissionais do humanismo e da moralidade internacional.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Delegados de turma vão a Belém

A democracia é, consabidamente, o pior dos regimes políticos. Mas é também, indubitavelmente, o mais generoso e divertido dos sistemas de governação. Pois em que outro sistema político poderemos ver uma atilada delegação de pequenos partidos tão heterogénea como a que foi recebida, no passado dia 25, por Cavaco Silva, ter como porta-voz a líder do trotskista POUS? Ver à mesma mesa o enfático líder do nacional-populista PNR ao lado do representante do maoísta MRPP, que por sua vez se sentara à equidistância de um abraço do fadista, marialva e monárquico Nuno da Câmara Pereira e do conservador Manuel Monteiro já é uma barrigada de riso, mas vê-los todos juntos, respeitosos e protocolares (de mãos suadas de nervoso miudinho) no hall do presidente fez-me lembrar uma reunião de delegados de turma com o presidente do conselho directivo lá da escola. É muita giro ver partidos anti-sistema apelar aos bons ofícios da figura cimeira do sistema.
O respeitinho é muito bonito. Mesmo quando (d) a democracia (se) desmerece.

Os aceleras da CML

À semelhança deste Governo, o executivo da CML parece gerir internamente os seus pelouros com a mesma habilidade dum jovem recém encartado. Sempre lestos no arranque, mas ainda muito ineptos no tempo e no modo de engrenar a mudança.
Primeiro foi a adrenalina das rescisões contratuais: qual rufias do tunning, levantaram uma nuvem de poeira ao arrancar, mas acabaram apedrejados pela assistência. Depois veio a corrida do empréstimo - mas as fragilidades da máquina são tantas que já se fazem apostas na desclassificação. De permeio, a imposição de um novo sistema de controlo de assiduidade nas boxes - mas em cada boxe reina já o seu sub-sistema. Agora, quiseram cortar o acesso à net ao pessoal administrativo - mas no mesmo dia suspenderam a medida. E já se começa a ouvir umas buzinadelas de protesto, pois parece que há pessoal de pista com o ordenado de Janeiro em atraso...Enfim, de solavanco em solavanco até ao despiste final.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O (des)assombro de Marinho Pinto

Marinho Pinto, recém empossado bastonário da Ordem dos Advogados, voltou a apontar as nódoas nos colarinhos da política portuguesa. É mais forte que ele. O homem bem tentou apaziguar a indignação classista prometendo contenção aos seus pares, mas parece que a sua pulsão tribunícia não vai deixar-se institucionalizar.
Pessoalmente, não me identifico com o estilo panfletário-justicialista de Marinho Pinto. Tenho dúvidas (ainda) que a Justiça se cumpra à força de megafone. Mas reconheço e saúdo o desassombro e até a coragem com que se expõe nas declarações que profere. Se é para denunciar as "tríades" da cunha, da tramóia, do parasitismo de Estado - actividades ainda infiscalizáveis pela ASAE -, valha-nos o Marinho Pinto - e que venham mais megafones!.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O silêncio do sindicato

Segundo li, Baptista-Bastos apresentou a sua demissão de sócio do Sindicato dos Jornalistas. O jornalista (e, goste-se ou não do papillon, um dos últimos cultores do dialecto cá do burgo) está indignado com o silêncio do sindicato da classe, no caso da acção que contra si foi proposta por Alberto João Jardim.
É sintomático. Quando o sindicato daqueles que fazem (ou deviam fazer) profissão da liberdade de informar se encolhe ou se alheia duma tentativa, ainda que chocarreira, de constranger um seu associado por delito de opinião, talvez seja melhor eliminarmos a actividade da lista de profissões e passarmos a enquadrar Jornalistas como Baptista-Bastos na categoria fiscal de, por exemplo, Cláudio Ramos, profissional da comunicação.

O Padrinho da Madeira

Cartazes do PND - Madeira retratam Alberto João Jardim como O Padrinho que domina a ilha. A ideia terá partido de uma frase proferida pelo presidente do Governo Regional, num encontro ocorrido em Abril com a JSD/M. "Temos de ser uma máfia no bom sentido e ajudar-nos sempre uns aos outros", terá dito Jardim, em jeito de Tudo pela Madeira, nada contra a Madeira! Vinda de quem vem, a frase não choca nem surpreende. Alberto João é uma versão corridinho do Don Corleone de Coppolla: anafado quanto baste, belicoso e bonacheirão e de charuto sempre em riste, não é difícil a um cinéfilo que se preze imaginá-lo a ordenar o silenciamento dum qualquer jornalista recalcitrante ou a distribuir copos e abraços na Festa da Flor. Mas convenhamos: a saga O Padrinho é uma trilogia dramática e a história política de Alberto João Jardim é uma comédia negra há trinta anos nos écrans portugueses.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ena Pá Menezes

Manuel João Vieira, o multifacetado vocalista dos EnaPá 2000 e ex-candidato a P.R., tem colaborado com Luís Filipe Menezes na redacção das suas últimas declarações políticas. A notícia ainda não foi confirmada pelos visados, mas, a avaliar pelo impacto das mais recentes declarações do líder do PSD, a influência de Manuel João é evidente. Quando se lê que Menezes promete desmantelar o Estado em 6 meses, é claramente perante uma parafraseação do slogan que Manuel João usou na sua campanha eleitoral - "Vou mudar Portugal!.. Para Espanha!" - que estamos. Quando Menezes afirma que ninguém devia ser primeiro-ministro sem conhecer Sumatra, é inequivocamente a inspiração onírica do heterónemo de Vieira - Lello Minsk- que está presente. E quando sugere querer ser o Sarkosy português, bom, aí é melhor não levarem mais vinho para mesa três do Maxime.