sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um problema de fruta

Confirmam-se as minhas suspeitas: o comandante da Zona Marítima do Sul, Reis Ágoas, tem alergia a fruta. Depois de proibir as massagens de praia, pois, segundo este, nunca se sabe como esta actividade pode acabar, agora veio proibir a distribuição de maçãs e pêras nos areais algarvios, promovida por duas campanhas de luta contra a obesidade e o colesterol, só porque uma das acções fazia publicidade a uma empresa petrolífera e outra era apoiada pela Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça, o que, obviamente, constituem formas intoleráveis de publicidade e marketing.
Mas atenção, é justo referir que o comandante Ágoas não é exemplar único do proverbial nacional-cretinismo. Na CCDR-Algarve também há quem seja alérgico à fruta. Pois segundo disse Sebastião Teixeira, chefe de divisão de serviços do Litoral, ao site Observatório do Algarve, "Por regra, não é permitida publicidade nas praias, e a actividade tinha o autocolante - a chancela - da GALP." Sublinhe-se que "a actividade" consistia na distribuição de pêras na praia...E que, se é verdade que a acção tinha a "chancela" da GALP, também é verdade que também tinha a "chancela" da Direcção Geral de Saúde, o que, só por isso, conhecendo-se a qualidade dos serviços prestados por aquele organismo público, nos levará certamente a subscrever a proibição da campanha...

Tudo ao BES

O Banco Espírito Santo (BES) está definitivamente em alta. Em alta no que se refere à imperturbabilidade com que observa a "crise" de credibilidade dos concorrentes e em alta no que respeita à capacidade de captação de clientela. Mesmo da "clientela" indesejável. É que, ultimamente, até os assaltantes de bancos (só) vão ao BES! Foi ontem, na agência de Campolide, foi em Setúbal, em 2006. Das duas uma: ou a concorrência está mesmo pelas ruas da amargura, ou o BES é, definitivamente, o banco preferido dos portugueses - e dos outros.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A extinção da (outra) memória

Nos dias que correm, sempre que se sabe da degradação ou demolição daquilo que se designa por património histórico-arquitectónico, é frequente ouvir bramir contra a eliminação da nossa "memória colectiva". Poucas são porém as vezes em que ouvimos falar daquilo a que chamaria a nossa "memória (ainda) viva". Refiro-me às notícias de extermínio e consequente extinção de grande parte das espécies de primatas que conhecemos e que, quer se aceite ou não, transportam consigo a memória daquilo que fomos e muitas das chaves para a compreensão daquilo que somos e seremos.
Segundo o Público de hoje, quase metade das espécies de primatas estão em vias de extinção.
A notícia, publicada em tempo de férias, passará ao lado da maior parte dos portugueses. Mesmo dos criacionistas. Mas fica o registo, de consciência, de quem conhece qualquer coisa de onde vem.

Clínica na hora

Segundo o presidente da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), "Neste momento é mais fácil abrir uma unidade de endoscopia digestiva do que um café". Isto porque, segundo noticia o Público de hoje, os dispositivos legais que impunham a emissão prévia de licença, pelo Ministro da Saúde, para a abertura de qualquer unidade de saúde sem capacidade para internamentos, foram revogados, encontrando-se o respectivo regime legal em revisão, desde 2007.
A fazer fé na notícia, 83% destas unidades encontram-se actualmente a prestar cuidados de saúde sem a desejável e necessária licença de funcionamento - mesmo que, segundo parece, tal situação se deva mais à esquizofrenia burocrático-legislativa, do que ao incumprimento voluntário dos responsáveis daquelas unidades.
É caso para dizer que, se quer abrir um café, abra primeiro (ou em vez de) uma unidade de saúde, é mais rápido e, a avaliar pelo número de clínicas e hospitais privados que vão abrindo um pouco por todo o lado, dá milhões!
Sendo a fiscalização (ou a falta dela) o que é, bem pode arrendar uma loja, instalar o balcão, a esplanada e a arca frigorífica dos gelados, que, desde que arranje um cantinho e, já agora, uma brasileira jeitosa, para medir a tensão arterial à clientela, vai ter uma unidade de saúde de sucesso!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

As feridas do soldado Cravinho

João Cravinho diz-se desiludido e pessoalmente derrotado com o "chumbo", pelo PS, do seu pacote legislativo contra a corrupção. Em entrevista ao programa "Diga lá, Excelência" diz sentir-se "como um soldado no campo de batalha que combateu mas foi derrotado pelo inimigo."
Sabendo-se, como se sabe, que o "inimigo", logo após o "derrotar", lhe ofereceu a prebenda de um lugar na administração do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), é motivo para dizer que, com inimigos assim, quem precisa de amigos?

O futuro do ex-inspector

Gonçalo Amaral já deve andar indeciso sobre o seu futuro profissional. Depois da sua saída da PJ, o ex-titular da investigação do "caso Maddie" ainda alvitrou a hipótese de abraçar a advocacia, mas, agora, a avaliar pelo número de presenças na televisão, nos jornais e até nas revistas cor-de-rosa, já para falar do best-seller da praxe, tenho impressão que a advocacia é um (outro) caso arquivado na vida do ex-investigador policial.
Talvez ainda o vejamos como comentador residente num qualquer programa da manhã ou a fazer concorrência a Moita Flores na autoria de séries policiais para a TVI.
Quem agradecerá a "desistência" é o bastonário Marinho e Pinto. Será menos um advogado-estagiário a "descredibilizar" a profissão.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A cena de Cavaco

Cavaco Silva falou ontem ao país, ou melhor, ao PS, ou melhor ainda, ao PS/Açores. Isto para não dizer que, na verdade, lá no interior do "boneco institucional" que encarna, Cavaco quis mesmo mas foi falar aos 230 idiotas que a Constituição da República permite que ponham e disponham dos seus poderes presidenciais sem lhe darem...cavaco!
Depois de um dia de suspense, de inusitado frenesim mediático em que todos sobre tudo especularam sobre qual seria o tema da anunciada declaração do Presidente ao país - o "chumbo" (parcial) do TC ao Estatuto Político-Administrativo dos Açores? o novo regime da Função Pública? o caso Apito Dourado e a FPF? -, Cavaco apareceu nas suas melhores vestes dramáticas, senho fechado, visivelmente nervoso, para discorrer, afinal e somente, sobre o chumbo ao Estatuto dos Açores.
Denso e fechado, o discurso não foi, evidentemente, para português perceber, mas para PS ouvir e Assembleia não tresler. Enfim, foi Cavaco à Cavaco.
Indubitavelmente, Portugal perdeu um actor dramático (canastrão) e, a grande maioria dos portugueses, uns longos minutos para fazer outra coisa qualquer.