sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os que nos dão a luz

Esta manhã, durante 14 minutos, o sul do país esteve sem electricidade. Tivesse o "apagão" ocorrido à noite e, a avaliar pelos diagnósticos ontem efectuados no debate do Estado da Nação, muitos dos alentejanos e algarvios (os de berço e os de adopção) teriam certamente pensado que era desta que alguém resolvera fechar a porta do país - sem que se esquecesse de apagar a luz.
Segundo o comunicado da REN, a quebra deveu-se a "ensaios realizados na sub-estação de Sines", no âmbito "do reforço da Rede Nacional de Transporte do Algarve", em construção - que, ainda segundo a REN, será uma "auto-estrada de energia que duplicará a capacidade energética e criará maior segurança e fiabilidade no abastecimento".
Para quem privou, durante 14 minutos, alguns milhões de portugueses de ver os programas da manhã do Manuel Luís Goucha e da Fátima Lopes e garantiu a milhares de trabalhadores uma pausa prolongada para café, só por ironia poderá falar em fiabilidade.
Mas o pessoal que nos dá a luz (salvo seja) é assim, uns pândegos: ora nos põem a pagar os calotes dos que querem electricidade ao preço da chuva, ora nos deixam às escuras - e à merçê da perícia do tipo do urinol imediatamente ao lado - num mictório de hipermercado!

G8 - Gourmet 8?

Um exemplo de hipocrisia política internacional.
Na cimeira do G8 que hoje começa, que apresenta como pratos fortes a alta do petróleo e a fome, o primeiro-ministro japonês (anfitrião do evento) resolveu exceder-se no empenho de hospitalidade aos representantes dos oito mais industrializados do Mundo, e resolveu esquecer a fome por uma noite oferecendo aos convivas um jantar constituído por vinte e quatro (24) pratos tipícos japoneses.
Se a moda pega, talvez seja melhor converter o G8 na confraria dos 8. Com Berlusconi e - por enquanto - Bush no grupo, era farra garantida. E os probrezinhos, os famélicos desgraçadinhos africanos, enfim, são fatalidades da existência.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A união de Pilar e Saramago

Pilar del Rio, esposa e musa do nosso nobelizado José Saramago, entende que a União Ibérica resolveria muitos problemas de Portugal.
A ideia não é nova (e até já foi tentada na era Felipina) - aliás o próprio Saramago, eternamente ressentido, já a havia alvitrado anteriormente, não resistindo a picar o orgulho nacional -; só não se percebe é que problemas nacionais essa integração resolveria - o défice público? Talvez: nossos hermanos até gozam de superavit. O desemprego? Certamente que Zapatero não se importaria de ver a reduzida taxa de desemprego espanhola aumentar em 7/8% A escolha do seleccionador nacional? Bom, se em casa de Figo se fala espanhol e até o Ronaldo já habla portunhol (ou nereidês?), que prurido nos causaria ter, por exemplo, Camacho na Selecção?
Mas ironias à parte: que por detrás da (falsa) proposta de reflexão de Saramago sobre o tema há um certo revanchismo latente, não me parece haver dúvidas - o escritor, talvez por hipertrofia do ego (como disse um dia Lobo Antunes), mais do que não perdoar a Cavaco a falta de solidariedade institucional, parece nunca ter perdoado ao país o silêncio iletrado perante a desconsideração de um secretário de Estado de que ninguém guarda memória. Já no que respeita à sua conchita, talvez valesse a pena perguntar-lhe se, por exemplo, também preconiza como proposta de resolução para os problemas de Timor, a sua integração na Indonésia, ou será que, sendo Timor Lorosae um símbolo do activismo politicamente correcto (e da má-consciência internacional), opinião similar não cairia bem nos palcos (ou fóruns como agora se usa dizer) internacionais frequentados pelo casal de Lanzarote? Fica a questão.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A amiga de Gonçalo Amaral

Elucidativa a entrevista de Gonçalo Amaral. Elucidativa não porque tenhamos ficado a saber o que falhou na investigação do caso Maddie, mas porque ficámos a saber que as (infelizes) declarações do inspector-coordenador da investigação da PJ - na origem do pontapé no rabo que diz ter levado de Alípio Ribeiro - foram prestadas a uma jornalista sua conhecida de Faro, "quase da família", pelo lado da mulher, conforme referido pelo próprio.
Perante tão cândidas palavras do recém reformado inspector da PJ, quase que nos perguntamos: com amigas jornalistas assim, quem precisa de inimigos jornalistas ingleses?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O garrote das taxas de juro

Como já se previa, a taxa de juro de referência na zona Euro sobe hoje para 4, 25%. Segundo o Banco Central Europeu, a medida visa garantir a estabilidade de preços na Zona Euro. Mesmo que seja à custa do sangue, do súor e das lágrimas - e, já agora, do andar hipotecado - do consumidor europeu.
Jean-Claude Trichet - que bem podia chamar-se Jean-Claude Constrichet -, aparentemente, conhece os riscos que a medida comporta para a recuperação económica da Europa mas, sempre ineffable et refinée, lá vai dizendo: madames et monsieurs, citoyens európeens, c´est lá vie.
Não sei se o presidente do Conselho Europeu em exercício comungará da bondade da medida, mas duvido. Sabendo-se que Sarkosy pretende imprimir um novo estilo na presidência da UE, resta saber como irá relacionar-se com o BCE e o seu inefável president.

A entrevista de Sócrates

"Entre o sono e o sonho/entre mim e o que em mim/É o que eu me suponho/Corre um rio sem fim."
O poema é de Pessoa e ocorreu-me ontem ao assistir a alguns momentos da entrevista de Sócrates à RTP.
Atendendo à dupla de estrelas - Judite de Sousa e José Alberto Carvalho - mobilizadas para a entrevista, ainda pensei que iria assistir uma verdadeira inquirição jornalística. Mas foi puro engano. Nem voltejando os temas quentes dos combustíveis e do mega-pacote de obras públicas os dois directores de informação da estação pública conseguiram embaraçar o nosso primeiro.
Depois de ouvir Sócrates fazer a apologia das convicções políticas, dei por mim a bocejar, à procura do telecomando algures entre as almofadas do sofá.
É caso para dizer que, entre o sonho de Sócrates e o sono dos entrevistadores, entre mim e o que em mim era o que suponho, aconteceu um semi-sono sem fim.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O (último) combate de Jaime Silva

O Governo declarou guerra ao nemátodo. Para quem, como eu, desconhece a identidade e a natureza do beligerante, informa o Público que se trata de uma doença do pinheiro, só combatível pelo recurso a altas temperaturas.
Ora, sendo - como é - o ministro da Agricultura um gerador de altas temperaturas ambulante, não me parece haver motivo para alarmismos. Com Jaime Silva à frente do combate não tardará para que eliminemos o bicho de todo o território nacional.