quinta-feira, 3 de julho de 2008

O garrote das taxas de juro

Como já se previa, a taxa de juro de referência na zona Euro sobe hoje para 4, 25%. Segundo o Banco Central Europeu, a medida visa garantir a estabilidade de preços na Zona Euro. Mesmo que seja à custa do sangue, do súor e das lágrimas - e, já agora, do andar hipotecado - do consumidor europeu.
Jean-Claude Trichet - que bem podia chamar-se Jean-Claude Constrichet -, aparentemente, conhece os riscos que a medida comporta para a recuperação económica da Europa mas, sempre ineffable et refinée, lá vai dizendo: madames et monsieurs, citoyens európeens, c´est lá vie.
Não sei se o presidente do Conselho Europeu em exercício comungará da bondade da medida, mas duvido. Sabendo-se que Sarkosy pretende imprimir um novo estilo na presidência da UE, resta saber como irá relacionar-se com o BCE e o seu inefável president.

A entrevista de Sócrates

"Entre o sono e o sonho/entre mim e o que em mim/É o que eu me suponho/Corre um rio sem fim."
O poema é de Pessoa e ocorreu-me ontem ao assistir a alguns momentos da entrevista de Sócrates à RTP.
Atendendo à dupla de estrelas - Judite de Sousa e José Alberto Carvalho - mobilizadas para a entrevista, ainda pensei que iria assistir uma verdadeira inquirição jornalística. Mas foi puro engano. Nem voltejando os temas quentes dos combustíveis e do mega-pacote de obras públicas os dois directores de informação da estação pública conseguiram embaraçar o nosso primeiro.
Depois de ouvir Sócrates fazer a apologia das convicções políticas, dei por mim a bocejar, à procura do telecomando algures entre as almofadas do sofá.
É caso para dizer que, entre o sonho de Sócrates e o sono dos entrevistadores, entre mim e o que em mim era o que suponho, aconteceu um semi-sono sem fim.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O (último) combate de Jaime Silva

O Governo declarou guerra ao nemátodo. Para quem, como eu, desconhece a identidade e a natureza do beligerante, informa o Público que se trata de uma doença do pinheiro, só combatível pelo recurso a altas temperaturas.
Ora, sendo - como é - o ministro da Agricultura um gerador de altas temperaturas ambulante, não me parece haver motivo para alarmismos. Com Jaime Silva à frente do combate não tardará para que eliminemos o bicho de todo o território nacional.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

O bastão de Marinho

Aí está mais uma vez o dr. Marinho e Pinto. Ainda as mais diversas associações femininas (ou feministas - juristas inclusivé) afiavam a língua (e as unhas, aposto) contra as declarações politicamente incorrectas do bastonário sobre a natureza pública do crime de violência doméstica, instando até as suas congéneres a não recorrerem aos serviços do causídico, já Marinho e Pinto se divertia a dar mais umas bastonadas nos juízes, no oportuníssimo momento mediático em que estes magistrados apareciam nos écrans a queixar-se de apanharem dos arguidos.
Mas como quem vai à guerra, dá e leva, não tardou para que o dr. Marinho apanhasse também; só que apanhou de si mesmo, como se, à força de tanto arrear, às tantas fosse o seu próprio bastão a atingi-lo em cheio na ética. É que, conforme confirmado pelo próprio, o dr. Marinho, tal como defendera durante a campanha para bastonário (verdade seja escrita), propõs ao Conselho da Ordem, que aprovou, que o bastonário passasse a ser remunerado e a ter direito a subsídio de reintegração.
Só por si, a notícia nada trás de novidade: o actual bastonário sempre defendeu a profissionalização do cargo que exerce. Curioso é que, sob a manchete que o noticía os seus autores não tenham logrado esconder os sorrisos escarninhos de alcoviteiras com que aparecem no caso. E lamentável é que, Marinho e Pinto, que não entrou na Ordem vindo duma SGPS da advocacia, querendo certamente eximir-se a um maior escrutínio da sua proposta - certamente utilíssima às oposições internas -, não tenha, ainda assim, consultado os conselhos distritais, dando assim o peito (a ética) a mais esse combate pela dignificação da advocacia, para acabar por emprestar ao(s) cavaleiro(s) da advocacia societária a cernelha - e passar por juiz em causa própria.

Da fruta (nem cheiro)

Afinal, não vai haver fruta para ninguém. Lamentavelmente, o juiz de instrução criminal do TIC do Porto não parece privilegiar a fruta na sua dieta alimentar, pelo que não vai submeter Pinto da Costa a julgamento no "Processo da Fruta" em que, de acordo com o MP (ou com a interpretação que Maria José Morgado fez das escutas telefónicas efectuadas ao presidente do FCP, no processo "Apito Dourado"), o Papa do Futebol nacional é escutado a tratar da dieta do árbitro Jacinto Paixão com o empresário António Araújo, na véspera duma partida FCP-Estrela da Amadora que o árbitro haveria de conduzir.
Segundo o JIC, o confronto do teor da conversa havida entre Pinto da Costa e Araújo com o depoimento de Carolina Salgado não lhe permitiu concluir que os escutados haviam acordado a contratação de prostitutas para o árbitro Paixão, ou seja: a conversa sobre a fruta foi, processualmente falando, infrutífera.
Inconformado, o MP já revelou que vai recorrer da fruta.
De Pinto da Costa, por sua vez, é de presumir que, tão depressa, não irá comer ou sequer recomendar fruta a quem quer que seja, pois, depois da overdose de vitamina C que foi Carolina Salgado, fruta só se for fruta-pão.

sábado, 28 de junho de 2008

Jú(não)dice

Aparentemente, José Miguel Júdice fartou-se de ser o responsável fáctico pelo plano de revitalização da zona ribeirinha de Lisboa. Aparentemente porque este nada disse sobre as razões que o levaram a afastar-se da liderança do projecto - tirando um excerto lacónico da carta de demissão, entregue a Sócrates, por si declamado em directo ao seu curioso companheiro do programa Dia D, António Barreto.
Segundo o visado, as suas razões serão vertidas em livro, a apresentar em breve ao grande público.
Está na moda: agora quem tem ou julga ter algo a revelar ao país, já não convoca conferências de imprensa nem escreve artigos nos jornais - escreve livros. O meio e a forma sempre emprestam alguma dignidade ao conteúdo (ou à ausência dele) e garantem uns trocados extras aos (pseudo) autores. Veja-se Carolina Salgado ou, conforme já prometido, Valentim Loureiro.
Vamos então aguardar - e juntar uns trocos - para comprar o livro das revelações de Júdice - para compor a estante lá da sala.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A Ferreira Leite de ontem, de hoje e a de amanhã

Manuela Ferreita Leite já está em campanha para as legislativas. Depois de falar - e nada dizer (nem nas linhas, nem nas entrelinhas) - ao partido, a nova líder da oposição resolveu encerrar o congresso dos social-democratas com meia dúzia de ideias gerais para o país. Um sistema fiscal transparente, simples e previsível e um Sistema Nacional de Saúde que garanta uma assistência condigna a todos independentemente da sua capacidade económica são as propostas que Manuela Ferreira Leite se propõe apresentar ao país. Para além da promoção da cidadania, claro. Soa sempre bem.
Para ideias-força de campanha, nada a declarar. Para quem era acusada de não ter um programa político, de não concretizar, de não definir um alvo, Manuela Ferreira Leite lá veio fazer pontaria a dois - dois alvos estratégicos tão concretos e pesados como elefantes: impossíveis de falhar. O que ela não diz é com que armas e munições lhes vai acertar - e muito menos quem vai dar o corpinho aos paquidermes.
É pena é que a nossa Tatcher só agora tenha dado pela falta de lógica e transparência no nosso sistema (problema!) fiscal e pela necessidade de assegurar a manutenção de um SNS condigno. Pois não passou já Ferreira Leite pelas Finanças? E não foi ela quem vendeu parte da dívida da Seg. Social ao Citygroup ?
Há muita falta de memória na política...