sexta-feira, 4 de abril de 2008

Os sintomas de Montalvão Machado

O deputado do PSD Montalvão Machado declarou hoje no Parlamento que a democracia portuguesa está em agonia.
Não sei o que este nosso deputado da república terá ingerido ultimamente, mas, contra a agonia, desde pequeno que ouço recomendar COMPENSAN, ou, mais caseiramente, chá de cidreira.
Mas afigura-se-me que, a atender às causas apresentadas pelo deputado para o mal-estar (a cultura de medo instalado pelo governo no país - em particular nas corporações profissionais dos médicos, juízes etc.), a agonia é mais um sintoma de uma das enfermidades psico-degenerativas que vêm afectando o seu partido nos últimos tempos. O que é compreensível nas instituições, tal como nas pessoas, vítimas de abandono e repúdio paterno. Pelo que, as declarações de Montalvão Machado não serão mais do que uma manifestação da fase de recusa e transfiguração da realidade a que o PSD se sujeita presentemente.
Assim, atrever-me-ia a sugerir ao senhor deputado que, não sendo a enfermidade de que padece o PSD de ordem estética (para infelicidade da Cunha Vaz & Associados), talvez valha a pena o seu partido recorrer a ajuda psiquiátrica, pois a acunpunctura auto-aplicada (a avaliar pelas constantes agulhadas dalguns curandeiros internos) não está, definitivamente, a resultar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

A saga de Marinho

O meu ilustre colega e bastonário Marinho e Pinto não resiste. Desta feita, exigiu a sua consciência democrática que emprestasse a sua voz à causa (execrável, conforme disse) de Mário Machado, o líder skinhead preso preventivamente na zona prisional da PJ, sob acusação da prática crimes de discriminação racial.
Caro Doutor Marinho: que Mário Machado tenha sido vítima da abrupta entrada em vigor do C.P.P., que a reapreciação (repentina) da medida de coacção que lhe foi aplicada possa ter sido efectuada com alguma ligeireza e leviandade (por mor da paz social!) e que, estranhamente, segundo diz, o arguido nunca tenha recebido a correspondência que lhe era destinada, não sei - mas dou de barato. Até um advogado intermitente como este que aqui opina, já terá tido conhecimento de iniquidades idênticas. O que surpreende e, permita-me que lhe confesse, me suscita alguma comichão intelectual, é que o sôtor não chame também a atenção da TV para a situação concreta e, igualmente abjecta, de outros reclusos deste país. É que temo, sinceramente, enquanto advogado e cidadão, que as luzes das câmeras começem a ofuscar (e a trair) os horizontes institucionais que lhe incumbe prosseguir. É que a luzes mediáticas têm por vício e virtude transformar (e deformar) os objectos sobre que incidem.

sábado, 29 de março de 2008

(Ainda) a violência na escola

Depois das histórias das praxes e dos discursos-placebo e dos programas Escola Segura, o país parece afinal ter despertado para o fenónemo da violência escolar. Há mais de vinte anos que se insultam professores nas salas de aula, que os alunos se agridem e violentam e roubam uns aos outros, que se consome e trafica estupefacientes dentro das escolas (inclusivé nas salas de aula), que os pais deseducam e ignoram ou simplesmente não querem saber o que os filhos fazem ou deixam de fazer na escola ou fora dela - afirmo-o com o conhecimento que só a experiência cauciona, a experiência de quem, com 11/13 anos, temia o recreio e as faltas dos professores como se teme o pátio da cadeia no 1º dia de reclusão; a experiência de ter sido assaltado dentro e nas imediações da escola - e em frente à residência particular dum nosso ex-Presidente da República!; a experiência de ver um colega transferido para outro estabelecimento de ensino, a meio do ano, porque se temia a vingança da família de outro aluno de quem se defendera; a experiência de ter colegas que saíam da sala, a meio da aula, pela janela, perante a temerosa indiferença do professor - isto no final da década em que nos começámos a sonhar europeus!. Mas, 20 anos volvidos, foi preciso passar-se, em horário nobre, um vídeo "escolar" posto no YouTube, para indignar as consciências e animar o mercado político-mediático.
E a avaliar pelas notícias mais recentes (pelo que se notícia, a protagonista-docente, cavalgando o apoio popular, está a disparar em todas as direcções, multiplicando a sua ira em diversas queixas-crime; e a protagonista-discente, que, por agora, tem conseguido manter-se a salvo do assédio mediáto, não esperará muito para ver prorrogados os seus minutos de fama), este filme vai ter direito a sessões contínuas, como é típico do género cinematográfico em que se insere.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Cavaco a banhos

Se alguém duvidasse ainda de que o nosso Presidente nunca tem dúvidas e raramente se engana, esta sua visita a Moçambique já terá convencido todos os descrentes. É que prevendo o clima incerto que tivemos este fim-de-semana prolongado, o Prof. Cavaco decidiu ir a banhos para Moçambique. Matou saudades dos coqueiros, recordou episódios idílicos e aproveitou para passear a comitiva empresarial. Mas já inovou, em matéria de diplomacia económica: foram assinados acordos de cooperação militar, o que, nas palavras do Prof. Cavaco, traduz um novo "olhar para outras formas de cooperação".

O mausoléu do PCP

Um ex-dirigente do PCP, Lopes Guerreiro, diz que reina "uma paz podre" no partido. Jerónimo de Sousa diz que não, "que não corresponde à verdade". E tem razão. Num partido em que, pelo menos desde 1989, se invocam cadáveres, já tudo apodreceu. Começando na ideologia, passando pela liturgia e acabando nalgumas mentes. Jerónimo de Sousa bem tenta arejar o mausoléu, mas há sempre o Bernardino Soares, jovem sacristão, a fechar os reposteiros da sacristia e a escumungar os vendilhões do templo.

Quando casar, não se esqueça: convide o Fisco

Uma sugestão aos nubentes portugueses: a partir de agora, quando fizerem a lista das pessoas a convidar para o casório, acrescentem mais três ao rol: o ministro das Finanças, o secretário de estado dos Assuntos Fiscais e, à cautela (não vá o homem acusar a desconsideração e mandar uma fiscalização extraordinária ao copo-de-água), o director-geral dos Impostos. De preferência, anexem a ementa do copo-de-água ao convite, para não dar lugar a dúvidas futuras e facilitar o cruzamento da informação fiscal. Não custa nada (assim como assim, se se convida a tia gorda e o cretino do chefe, também se convidam estes três emplastros) e sempre se adianta trabalho. É que, logo após o casório, o Fisco vai notificar os pombinhos para apresentarem as facturas dos comes-e-bebes; e se não as tiverem, lá se vai os €250 que o leilão das ligas rendeu. É que, segundo o Fisco, é mais fácil caçar pombinhos que patos bravos!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Corrupção até à cova

Onze coveiros dos cemitérios de Benfica e Alto de S.João, em Lisboa, e um empreiteiro foram, na passada semana, constituídos arguidos por indícios da prática do crime de corrupção passiva. Num período em que a gorja, a gratificação, a imperial paga no café da esquina, o envelope das boas-festas ou das amendoas (é infinda a nossa criatividade eufemística para definir corrupção)está na ordem do dia, não é de espantar a notícia. Pois, afinal, quem nunca foi abordado pelo coveiro lá do cemitério, sugerindo-lhe que "uma camadazita de brita sempre impermeabiliza melhor a campa e dá outro aspecto. Quando quiser, já sabe" ? Ou até pelo agente funerário, que lhe diz: "Com os arranjos da campa não se preocupe. Amanhã, vá falar com o senhor Fulano de Tal e diga que vai da minha parte. Ele trata de tudo. Só tem de me dizer que tipo de pedra quer."
No que me diz respeito, nunca o fiz. Mas tenho muitas almas caridosas e temerosas ("eles são pagos para fazer, mas se não se der, não vão eles desprezar a campa..") na família que já têm ajudado a compor o vencimento daqueles a quem compete garantir que a terra nos é pesada.
Que estas práticas, socialmente toleradas e aceites, revelam muito da promiscuidade e do relativismo moral de que há muito enferma a sociedade lusa, a sua denúncia também demonstra o alheamento e a desorganização dos serviços da CML responsáveis pela gestão cemitarial - pois, ninguém - desde o vigilante ao portão dos cemitérios, passando pelos fiscais e terminando no responsável máximo pela gestão do cemitério - alguma vez suspeitou de que havia campas arranjadas por obra e graça da santíssima trindade sem que tivesse havido licença para o efeito? E, já agora, não poderia (e deveria) a CML informar os seus munícipes, de forma clara e inequivoca, das regras a observar aquando do arranjamento de campas? Ficam as interrogações, que são o que mais sobra nesta caso.